#30 - Sinais e pêssegos
Até os meus 10 anos de idade eu gostava muito de pêssego. Eu e minha avó. “Quer um pêssego? Olha como tá bonito.” — eu ouvia várias vezes quando entrava na cozinha. Sempre achei curioso como uma fruta podia ter textura de tecido. Pode comer isso? Macio como uma mantinha, dessas que a gente se enrola no sofá e sente mais aconchego. Eu gostava deles mais firmes e nunca, jamais, em calda. Fazer um carinho na casca com a ponta dos dedos é parte importante de comer pêssego.
Aí quebrei o braço. E numa experiência um tanto traumática passei algumas horas no hospital completamente abatida. Minha avó veio logo me socorrer com umas tantas caixinhas de suco de pêssego. Na época, o Del Valle tinha acabado de surgir e era o suco de caixa com gosto de fruta de verdade — até ser comprado por você sabe quem e nunca mais ser o mesmo. Mas, até então, o veludo ainda estava ali em forma de líquido e eu adorava! Deitada na maca, tomei tanto suco que durante uns bons meses depois disso eu não podia nem sentir o cheiro de pêssego. Me sentia enjoada. E assim foi por tanto tempo que passei a acreditar que eu não gostava mais de pêssego. Não que isso fosse uma verdade absoluta, porque acho que até comi um ou outro, mas sempre que alguém me oferecia pêssego, já não me apetecia como fazia quando era criança. Uma associação ao braço quebrado, ao enjoo ou apenas mais uma crença inventada e que carreguei por anos sem me dar conta?
Ao pensar sobre isso recentemente, percebi que durante os sete anos em que morei sozinha, talvez eu nunca tenha comprado pêssegos para mim mesma. Isso, pelo menos, até uns três meses atrás quando de repente sonhei com pêssegos. Não foi um sonho marcante e com uma história boa para contar. Lembro apenas de sonhar com a fruta e de acordar achando curioso. Então, como era de se esperar, naquele final de semana, enquanto meu namorado e eu estávamos no sacolão, o inevitável aconteceu: “Amor, quer pêssego? Olha como tá bonito”. E contei para ele essa história toda. Cheguei em casa com tanta vontade de pêssego que comi logo dois, com a boca tão boa que só conseguia pensar: por que deixei de comer pêssegos por tanto tempo?
Depois disso, passei a comprar pêssegos com uma certa frequência e gosto de comê-los no café da manhã, minha refeição favorita. Umas semanas atrás a Cookie ficou doente e passei dias preocupada. Vômitos e diarreias frequentes e absolutamente nenhuma vontade de comer. Mandei mensagens e liguei para a veterinária dela que não me respondia. Sem conseguir reverter o quadro sozinha e, agora, longe da clínica próxima de onde eu morava, entendi que precisaria procurar outra pessoa. Eu sou uma pessoa fiel aos médicos e profissionais que me atendem, mas morando num bairro novo há pouco tempo, ainda não conheço bem as coisas por aqui. Fui no mais perto. Uma clínica veterinária que abriu há pouco tempo aqui na rua de trás. Dra. Facchinei deu um atendimento tão profissional, acolhedor e humano que me encantou. E só percebi a semelhança no nosso sobrenome quando ela carimbou o pedido dos exames.
Aos sábados, essa rua de trás tem feira e aproveitei para ir e voltar a pé com a Cookie para ver se ela se animava um pouco com o movimento. Quase na esquina de casa, vi um amontoado de pêssegos belíssimos grandes e aveludados. Não tinha me programado para comprar nada, mas como é que eu poderia passar por eles? Não resisti. Chegando em casa, fui logo preparar meu café da manhã e tentei dar comida para a Cookie, mas de novo ela não queria nada. Sentei no sofá aflita e levei meu pêssego gigante comigo. Respirei fundo e logo na primeira mordida, a Cookie reagiu e pulou no sofá com cara de pidona. Você quer pêssego? Você nem gosta de pêssegos! Pensando bem, acho que nunca te ofereci pêssegos. “Cachorra, você quer pêssego?”.
Comeu. Metade da fruta todinha.
Semana passada fez dois anos que a minha avó morreu. E tem dias que ainda me bate o ímpeto de pegar o telefone para contar para ela que as minhas flores no jardim estão lindas do jeitinho que ela gostava. Talvez, me mandar sonhos sobre pêssegos, seja o jeito dela de me dizer que cuidado, amor e cura estão sempre por aqui. Por vezes escondidos em formato de fruta.
Essa poderia ser apenas uma história qualquer de alguém que, de repente, voltou a comer pêssegos ou sobre um cachorro que se curou com pêssegos, mas as sincronicidades acontecem comigo com uma frequência danada para eu não enxergar a mágica nelas.
A vida às vezes conta segredos em prestações. Basta que a gente esteja atenta às próximas pistas.
Queridos leitores e assinantes, essa news é um projeto pessoal de quem trabalha com livros há 16 anos e sabe que o mercado editorial pode ser bastante desafiador. Por isso, agradeço de coração seu interesse nos meus textos autorais e por fazer parte da minha audiência literária.
Os textos continuarão a ser compartilhados gratuitamente, mas agora, existe a possibilidade de contribuir com o meu trabalho, caso queira se tornar um assinante pago, basta clicar no botão a seguir para saber mais.



Que texto lindo! E eu amei essa foto da Cookie contemplando os pêssegos!
Bjs