#31 - Saber bem
Eu não conheço todas as palavras. E não estou falando de todas as palavras do português ou do inglês (meu segundo idioma). Até porque querer conhecer todas as palavras de uma (ou duas) línguas seria de uma pretensão imensa. Isso sem contar as variações para o português de Portugal por quem, confesso, tenho uma queda enorme. O sotaque prefiro o nosso, muito mais macio, cheio de ritmo. Mas a construção das frases e emprego das palavras em Portugal tem um charme antiquado que eu adoro. “Tas a brincar” me pega muito mais que um “Cê tá brincando”, por exemplo. Ou quando dizem “Não percebi” em vez de “Não entendi”, porque, afinal, não perceber realmente faz muito mais sentido nesse contexto. Posso não conhecer todas as palavras, mas gosto muito delas. Principalmente das que não conheço ainda.
Certa vez, depois de almoçarmos juntas, uma colega portuguesa me disse: “A comida não me soube bem”. Pensei que tivesse entendido mal. “Oi?” e ela repetiu “A comida não me soube bem”. Num suspiro de intuição (porque racionalmente eu jamais tinha ouvido aquilo sair da boca de alguém), percebi tudo. Este “soube” que me significava saber, na verdade, parecia ter alguma relação com sabor. O que ela quis dizer foi que a comida não tinha caído bem, claro — e talvez isso tenha mais relação com acidez estomacal do que com um sabor ruim, mas pensar que uma comida era capaz de não nos saber bem me deixou intrigada. Quantas coisas não nos sabem bem? Não só por caírem mal, mas por realmente não haver compreensão do que está por dentro?
Vou dar um exemplo. Uma das suas melhores amigas pode não te saber bem diante de uma situação específica e dar péssimas ideias sobre o que fazer em relação a algo. Enquanto isso, outra amiga pode te saber tão bem que capta tudo com velocidade e diz exatamente o que você precisava ouvir para encontrar um pouco de conforto. E pode até ser que essa situação específica, sobre a qual uma amiga ajudou e a outra não percebeu, pode cair no mesmo lugar ácido do estômago em que se encontra a comida que não sabia de nada. Aliás, muitas palavras pesadas caem na boca do estômago e fazem um estrago muito maior que qualquer desconforto alimentar. O pior é que, geralmente, esse prato nos chega à mesa sem que tenhamos pedido por ele.
Li em algum lugar que na filosofia, a palavra atua como um órgão de percepção que nos permite organizar a nossa experiência interna para que ela se organize conforme a chegada da linguagem. O que me faz pensar que se a palavra fosse mesmo um órgão poderíamos compará-la a língua. O que também me faz pensar que linguagem derivar de língua não deve ser mera coincidência. Tanto é que as palavras também saem pela boca. Será por isso, também, que colocamos tudo dentro dela na infância para experimentar o mundo?
Conhecer bem as palavras traz as dimensões e nuances do que sentimos. Primeiro porque elas nos dão contorno para emoções que, por vezes, são intensas a ponto de doer. Segundo porque quando sabemos nomeá-las, finalmente podemos começar a tentar dar sentido e organização para aquilo que aflige. Não que, com isso, conseguiremos temperar a nomenclatura com coragem para agir a partir dela. Hoje, por exemplo, estou orgulhosa porque consegui dizer coisas dificílimas e que estavam no meu estômago há dias. Porém, também bati os olhos em palavras traídas e já tenho um novo prato que não me soube bem para digerir. Quando a palavra falta quem fala é o corpo. E até que se vomite uma sopa de letrinhas, nada passa.



Ainda bem que você escreveu 🥰
Amei!💓